NARCOS: NEOMACARTISMO E OS MARCIANOS

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Por: Sebastián Ronderos, ativista do Conexões em Luta

A filosofia de Nietzsche se constituiu como a matéria prima para estruturar um marco teórico do Terceiro Reich, principalmente através da sua irmã, Elisabeth Förster-Nietzsche, quem, antissemita e nacionalista alemã, ajudou a forjar o conceito central de (1901) Vontade de Poder, recopilando textos do seu irmão com financiamento direto de Hitler. A vontade de poder, desde o Nietzsche, precisa aumentar ininterruptamente, conquistar, dominar e expandir seu espaço vital para assim se conservar, como em um ciclo quase infinito.

Dita vontade procura a imposição de uma interpretação da vida, gerando um determinado senso comum na sociedade, afogando a consciência crítica subjetiva em função da ração de quem domina. Göbbels, cínica e genialmente, reinterpreta a fase de Nietzsche: “não há fatos, só interpretações”, em: “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”.
Daqui se desprende uma teoria do poder comunicacional, que procura que a própria mensagem seja a única possível. Assim como Göbbels, o senador republicano estadunidense, Joseph McCarthy, entendeu a importância da propaganda, o cinema e a televisão nas relações de poder, o que o levou a desenvolver uma caça às bruxas em Hollywood, exercendo de Torquemada sobre a arte e a cultura.

Fazendo um paralelo entre marcianos e comunistas, começaram a se produzir filmes sobre extraterrestres que invadem os EUA, como os longas-metragens: (1953) A guerra dos mundos de Byron Hasking e (1956) Os visitantes do espaço exterior de Fred Sears. Hollywood tornou-se um centro de propaganda política pró-estadounidense – e dos seus melhores aliados -, exacerbada após o 11 de setembro por meio da doutrina da guerra preventiva.

Agora bem, pra recriar a história recente da Colômbia, por meio da vida de Pablo Escobar – no ponto final da agenda de negociação de paz com as FARC -, Hollywood destina uma das suas melhores plumas, Chris Brancato, para escrever a série Narcos, produzida por Netflix. Nem mais nem menos que o criador do filme (1998) Espécies II, onde, novamente, se recorre ao paralelo de extraterrestres que infectam a terra ameaçando a vida humana, tradicional, livre e capitalista.

O seriado pretende abarcar uma audiência maior do que a colombiana, fazendo um foco especial no Brasil ao trazer o diretor José Padilha e o ator Wagner Moura, ambos amplamente respeitados no Brasil por abrir espaço nos seus trabalhos à problemáticas sociais e procurar olhares críticos frente ao cenário político brasileiro, fora de contribuições especiais de figuras publicas brasileiras como Rodrigo Amarante. Padilha e Moura trabalharam juntos no longa-metragem mais caro e famoso do Brasil: (2007) Tropa de elite, filme que causou polêmica ao apresentar uma dicotomia entre policiais bons e ruins, onde a punição incorruptível é apresentada como a saída à problemáticas complexas em uma das cidades mais desiguais de América Latina e no país com a quarta população carcerária do mundo. Não obstante, o respeito por trabalhos anteriores e sua posição frente ao atual cenário político ajudou a impregnar credibilidade nesta ficção ao estilo hollywoodense, apresentada por meio de registros oficiais como uma série-documental.

Não quero dar excessiva atenção nas erratas históricas, minuciosamente recriadas por Brancato, como fazer a reinterpretação da guerrilha M-19 através do mundo rural, integrada por jovens sectários, que como diz a própria série, “leram o Marx demais pro seu próprio bem”, e que acabam se enredando no narcotráfico pelo seu fanatismo. Convém lembrar as figuras de Jaime Bateman ou Carlos Pizarro para entender o caráter urbano, fundamentado e crítico dos principais protagonistas do M-19; que na sua maioria não vinham de uma tradição marxista, mas da militância da ANAPO, integrados à luta armada após a fraude eleitoral contra Gustavo Rojas Pinilla em 1970.

No episódio histórico da tomada do Palácio de Justiça, se comprova que nenhum dos Magistrados foi ferido por armas da insurgência, como relata o próprio Yesid Echandía, filho do então presidente da Corte, Alfonso Reyes Echandía (assinado na retomada do Palácio pelos militares). Os pesquisadores mais sérios daquele evento, como Darío Villamizar, Ramón Jimeno, Juan Manuel López e Laura Restrepo, descartam enfaticamente a aliança entre o M-19 e Pablo Escobar, negando também a veracidade do presente da espada de Bolívar a Escobar pelo M-19, a qual foi entregue às autoridades pela guerrilha na sua desmobilização o 31 de janeiro de 1991.

Nem que falar daqueles jovens que trabalhavam no Palácio, resenhados como guerrilheiros pelo exército, que foram torturados e desaparecidos pelo terrorismo de Estado, dos quais se acharam recentemente os corpos de Cristina del Pilar Guarín, Luz Amparo Oviedo e Luz Mary Portela. Não em vão, Gloria Gómez, coordenadora da Associação de familiares de desaparecidos (Asfaddes), diz: “Aos familiares dos desaparecidos se nos tratou de mentirosos e oportunistas”. Vamos lembrar o Göbbels: “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”.

Enfim, se tem mais provas concretas das licenças concedidas pelo ex-presidente e hoje congressista Álvaro Uribe Velez a narcotraficantes, dentre eles Pablo Escobar, que a relação apresentada por Netflix entre o M-19, Pablo Escobar e o incêndio do Palácio de Justiça.

Narcos promove uma historia distorcida que inverte a relação entre a inteligência estadunidense e as dinâmicas do narcotráfico; é quase uma regra, quanto maior presença dos norte-americanos no território nacional, maior e mais perigoso ele se torna. Se levantam provas inexistentes ou informações verdadeiras que não foram apresentadas pela DEA, mas pelo jornalismo independente colombiano, como, por exemplo, a foto de réu de Escobar, levada as autoridades colombianas diretamente pelo jornal El Espectador.

São alguns elementos que ressaltam uma reinterpretação caricata que retoma a perspectiva colonial dos EUA e os falsos imaginários constituídos pela elite tradicional colombiana, em função de deslegitimar seus nexos com a impunidade que, até hoje, sustentam a violência política. Faz-se um claro reforço do vinculo entre esquerda e crime, através da narração de um agente da DEA que se aventura corajosamente na Colômbia para nos salvar de nós mesmos; quem se transforma em um ser selvagem, pré-moderno e irracional na medida em que se suja do acervo colombiano, do mesmo jeito que Patrick Ros, protagonista do filme (1998) Espécies II, vira uma criatura perigosa, que põe em ameaça a vida na terra, ao se expor ao DNA alienígena.

Será uma coincidência que um clássico expoente do macartismo hollywoodense faça uma reinterpretação da infecção marciana através da violência colombiana? E, caso contrário, por que agora?

No final do século XX e começo do XXI, EUA centram seus esforços no Oriente Médio, descuidando seus interesses no seu quintal histórico, America Latina, dando o respiro preciso aos movimentos sociais do sul para se rearticularem e perfilar suas pretensões eleitorais. Hugo Chávez na Venezuela; Evo Morales na Bolívia; Néstor e Cristina Kirchner na Argentina; Rafael Correa no Equador; Michelle Bachelet no Chile; Lula no Brasil; Tabaré Vázquez no Uruguai. Uma década ganha por movimentos populares que deram à região direção contrária dos interesses e predominância históricas dos EUA, do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, consolidando projetos neodesenvolvimentistas de integração regional como MERCOSUL e ALBA.

EUA enfrentam um panorama global de fortes disputas por hegemonia, que mantém ainda a sua por emitir a moeda padrão (dólar), mas num tabuleiro geopolítico multipolar onde China e Rússia jogam um papel determinante no âmbito comercial e energético, ingressando nos mercados latino-americanos, e com uma Índia que cresce exponencialmente. Depois de 2010, as oligarquias locais na America Latina têm desenvolvido uma contraofensiva através de guerras econômicas, difamação por meio da mídia e fraturas institucionais por golpes parlamentares.

EUA têm rearticulado seus interesses geoestratégicos, pressionando a Venezuela e suavizando Cuba, impulsionando a Aliança do Pacífico e o Acordo Transpacífico de Cooperação Econômica como respostas ao MERCOSUL e BRICS, mostrando seus focos, não já no Oriente Médio, mas, concretamente, na Ásia e na América Latina.

Colômbia resulta como o centro nesta história, pois tem sido a exceção das transições políticas nas ultimas décadas, com as mesmas elites políticas e econômicas do século XIX no poder, mantendo vivo o espírito da guerra contrainsurgente e dando presença física na America do Sul às tropas estadunidenses com saída direta pro pacifico e atlântico. Narcos deixa claro que, em paz ou guerra, EUA continuaram desenhando o caminho da Colômbia para a liberdade e democracia de mercados que, vale a pena lembrar, mantêm o país com o maior nível de desigualdade no continente mais desigual do planeta. Também é bom ressaltar que o presidente que abriu o espaço institucional para impor o neoliberalismo como doutrina econômica de Estado foi o César Gaviria, apresentado no seriado como um verdadeiro patriota que luta contra o fratricídio da violência, mas que a sua maior contribuição foi a trasnacionalização da soberania colombiana em subserviência aos interesses dos EUA. O outro foco essencial em dita estratégia, respaldada pelos cabos de Wikileaks sobre espionagem norte-americana na região, é o país com o mercado mais diversificado da América Latina, que tem estruturado uma proximidade comercial e financeira com a África e a Ásia, fora de ser uma peça essencial no MERCOSUL e nos BRICS, hoje num processo de golpe parlamentar. Casualmente o país do continente com a maior participação na produção da serie Narcos: Brasil.

O que mais falta para o país reagir ao golpe?

21 anos
Cartaz do filme O dia que durou 21 anos

Texto por: Ulysses Ferraz, escritor e ator.

O último golpe durou 21 anos. E seus efeitos perversos repercutem até hoje: uma herança implacável que acentuou a concentração de renda e da riqueza, naturalizou a violência policial, reforçou privilégios dos poderosos e ampliou as desigualdades sociais. O novo golpe tem 45 dias de duração, mas parece uma eternidade. São 45 dias sem democracia. São 45 dias de Estado de exceção. São 45 dias de brutalidade. São 45 dias de ataques a direitos sociais conquistados com luta, sangue, suor e lágrimas. Tudo às claras. As informação circulam sem nenhum segredo. O golpe está nu. Assim como seus conspiradores. Todos sabemos que é golpe. Os golpistas sabem. O mundo inteiro sabe. Até Michel Temer admitiu publicamente a existência de um golpe. Não cabem mais eufemismos. Golpe é golpe. Seus impactos negativos são reais. Imediatos. E já repercutem em todos nós. Políticas públicas de inclusão social e redistribuição de renda já estão sendo destruídas. O capital financeiro e as grandes corporações tomaram de assalto nossas instituições. Toda uma rede de proteção social, amparada e exigida pela Constituição Federal, cuja construção havia apenas começado a dar seus primeiros passos significativos, corre sério risco de ser mais uma vez interrompida. Se o golpe continuar impunemente, incontáveis gerações serão duramente impactadas por ele. De maneira irreversível. Os 21 anos do último golpe foram perdidos para sempre. Aos democratas de hoje, há uma única questão relevante no Brasil: o que mais falta para o país acordar, e reagir contra esse trágico golpe, antes que seja tarde demais? O Brasil já foi desperdiçado demais ao longo de sua história. Não temos mais o direito de perder sequer um dia a mais. Mas temos o dever inadiável de lutar todos os dias.

Abertura das Olimpíadas e Manifestações – 05 de agosto de 2016

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Texto por: João Gomes, ativista do Conexões em Luta

“No Espetáculo, o poder está por toda parte, quer dizer que todas as relações são em última instância relações de dominação” – Tiqqun

As movimentações críticas à atual conjuntura política brasileira começaram cedo no Rio de Janeiro no dia da abertura oficial dos Jogos Olímpicos. A tensão era palpável do lado dos instrumentos repressivos para que o espetáculo internacional não fosse manchado pela força, inevitável, da presença das organizações sociais, partidos e coletivos de esquerda nas ruas durante todo o dia. Somente as mídias comprometidas com o esporte transformado em mais uma mercadoria tentaram retirar a visibilidade das manifestações, no entanto qualquer pessoa que circulasse pelas ruas nas proximidades das regiões nas quais se realizam os jogos não escaparia à presença real da indignação. O forte contingente policial e militar mobilizado para conter as manifestações sob pretexto de prevenção antiterrorista também não logrou êxito. Pode-se dizer que este contingente acabou por se somar e potencializar a importância de tais atos em um contexto de estado de exceção instaurado. Lembremos que o parágrafo 2º. do artigo V da Lei 13.260, apesar do que o texto deixa transparecer, restringe à uma interpretação redutora e pouco clara a legitimidade de atos de desobediência civil : “O disposto neste artigo não se aplica à conduta individual ou coletiva de pessoas em manifestações políticas, movimentos sociais, sindicais, religiosos, de classe ou de categoria profissional, direcionados por propósitos sociais ou reivindicatórios, visando a contestar, criticar, protestar ou apoiar, com o objetivo de defender direitos, garantias e liberdades constitucionais, sem prejuízo da tipificação penal contida em lei” [grifo nosso]. Como é notório, manifestações que claramente se enquadrariam nesta descrição sumária continuam a ser duramente reprimidas ou impedidas de se realizarem, como aconteceu com o segundo ato da tarde do dia 5 de agosto no Rio e com o ato na Avenida Paulista em São Paulo convocado pelo bloco Periferia Revolucionária|AnarcoPeriferia.

Das manifestações previstas para o Rio de Janeiro, duas tiveram adesões e desdobramentos dignos de nota. A primeira, convocada pelas centrais sindicais, pelo Movimento Povo Sem Medo e a Frente Brasil Popular aconteceu na praia de Copacabana entre 11h e 16h. De acordo com os organizadores mais de 20 mil pessoas compareceram. As organizações presentes que puderam ser identificadas foram o Sinasefe (Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica), Sindscope (Sindicato dos Servidores do Colégio Pedro Segundo), CSP – Conlutas (Central Sindical e Popular), CST – PSOL (Corrente Socialista dos Trabalhadores no interior do Partido Socialismo e Liberdade), CSP/Mulheres em Luta, LPS (Luta Popular e Sindical), CUT (Central Única dos Trabalhadores), RUA – Juventude Anticapitalista, Mulheres Pela Democracia, CMP (Central de Movimentos Populares), MNLM-Rio (Movimento Nacional de Luta pela Moradia), PSTU Nacional (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados), ANEL (Assembléia Nacional dos Estudantes Livre), ASFOC – Sindicato Nacional (Sindicato dos Trabalhadores da Fiocruz), SINTUFF (Sindicato dos Trabalhadores em Educação da Universidade Federal Fluminense), Coletivo Quilombo, SINTECT-Santa Catarina (Sindicato dos Técnicos Industriais de Santa Catarina), CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil), Sintufrj (Sindicato dos Trabalhadores em Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ), PCB (Partido Comunista Brasileiro), PCdoB (Partido Comunista do Brasil), UJC (União da Juventude Comunista), MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), UP-UFRJ (Unidade Popular), MDM (Movimento Pelo Direito a Moradia), CONAM (Conselho Nacional da Associação de Moradores), Povo Sem Medo, Ocupa MinC-RJ, Frente Brasil Popular, SindiSaúde-MG, Movimento de Mulheres Olga Benário, Sindicato dos Bancários-CUT, MTD (Movimento dos Trabalhadores Desempregados), PT (Partido dos Trabalhadores), PCO (Partido da Causa Operária), Juventude Revolução, ANDES (Associação Nacional de Docentes do Ensino Superior), AMES (Associação Municipal dos Estudantes Secundaristas), UNE (União Nacional dos Estudantes), UBES (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas), UEE-RJ (União Estadual dos Estudantes do Rio de Janeiro), UEES-RJ (União Estadual dos Estudantes Secundaristas do Rio de Janeiro) e a ANPG (Associação Nacional de Pós-Graduandos), estas últimas sete associações ligadas à educação se unificaram ao redor pauta “Plebiscito por novas eleições”.

O que chama imediatamente a atenção é a forte multiplicidade de organizações políticas e sociais que responderam à convocação. Evidentemente, a oportunidade de se poder contar com o interesse mundial pelas Olimpíadas não foi desperdiçada como elemento central em uma estratégia de denúncia, demonstração de indignação, contra-propostas e campanhas eleitorais (haverá novas eleições municipais em breve), bem como expor, constranger e pressionar o presidente interino.

Os discursos da esquerda presente no grande ato não são homogêneos, o que já é esperado e conhecido. Para além das pautas específicas de cada organização é patente o desacordo interpretativo a respeito da conjuntura política atual, o que determina toda e qualquer ação ou decisão a ser tomada de modo mais imediato por qualquer uma dessas organizações. A CST (Corrente Socialista dos Trabalhadores) ligada ao PSOL repudia veementemente a tese do golpe contra a Presidenta Dilma Rousseff e contra o PT. No editorial de seu jornal (agosto de 2016, no. 75) intitulado “Fora Temer! Não volta, Dilma! Fora todos!”  a CST acusa o PT e sua coligação com o PC do B, apoiados pela CUT, CTB, MTST, Povo Sem Medo, Frente Brasil Popular e a própria direção nacional do PSOL de alimentarem uma oposição falsa através do discurso do golpe, insustentável diante das alianças e da política de coalisão que ainda permanece. O texto convoca ainda as centrais sindicais acima mencionadas e a UNE a se unificarem e promoverem finalmente uma greve geral nacional e que “ as direções das organizações de esquerda – PSOL, MTST, etc – mudem de linha e rompam em bloco com o PT e o PC do B.” Esta posição é compartilhada pela LPS (Luta Popular e Sindical), por exemplo, que identifica a crise capitalista que se abate contra os direitos dos trabalhadores como um movimento de largo espectro que não isenta o governo do PT de sua responsabilidade e não verificam, como deixam claro em seu Boletim Especial (agosto de 2016), “uma reação à altura por parte das centrais sindicais. Muitas delas completamente integradas ao sistema, agem como beneficiárias dos capitalistas. A esquerda se fragmenta, e na sua grande maioria, aponta como saída apenas as eleições e está completamente incorporada à falsa democracia que existe no Brasil e nos outros países capitalistas”. A CSP-Conlutas convoca igualmente uma greve geral e repete (Boletim Especial, agosto de 2016) o mesmo discurso crítico, menciona o nome do prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes que se aproveita dos Jogos para atacar direitos trabalhistas conquistados e agir de uma maneira que apenas reforçou a “política de terror e extermínio às mulheres, a juventude negra e aos LGBTs promovida pelo estado brasileiro”. Por outro lado, o PCO se alinha à tese do golpe defendida pelas grandes centrais sindicais e partidos de esquerda. Este último menciona a consolidação progressiva de um governo PMDB-PSDB-DEM e cita como exemplo a recente eleição do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM) sem precisar que o PT o apoiou. Assim como as demais organizações citadas o PCO convoca também uma greve geral.

O segundo ato foi marcado para as 14h na Praça Saens Peña e foi chamado pelo movimento Jogos da Exclusão. Compareceram à convocação as seguintes organizações identificáveis no momento:  a FRDDP (Frente Revolucionária de Defesa dos Direitos do Povo), FLE (Frente Libertária Estudantil), Unidade Vermelha, FAL (Frente Anarquista e Libertária), MPC, MEPR (Movimento Estudantil Popular Revolucionário), RECC (Rede Estudantil Classista e Combativa), MOCLATE (Movimento Classista dos Trabalhadores em Educação) e MNLM (Movimento Nacional de Luta pela Moradia). A participação popular foi consideravelmente menor se comparada ao ato que acontecera em Copacabana mais cedo. Estima-se que haviam mil pessoas presentes. Nota-se também uma menor adesão de movimentos sociais organizados tradicionais, o que provavelmente não era previsto, como bem mostra a publicação na página do PCB de 2 de agosto (https://pcb.org.br/portal2/11732 acesso em 06|08|2016):  “Para o dia 5 de agosto, às 14h, os mais de 100 movimentos sociais, organizações e coletivos que integram a Jornada de Lutas convidam a todas e a todos a se somarem a uma manifestação na Praça Saens Peña, na Tijuca, zona norte do Rio.” Aparentemente a maioria dessas organizações e coletivos decidiram comparecer, como o próprio PCB, à manifestação de Copacabana.

O aparato policial mobilizado para a Saens Peña foi absurdamente desproporcional e qualquer explicação que possa se basear nas confirmações de presença via redes sociais é injustificável quando confrontadas com a natureza da ação policial utilizada em Copacabana, muito mais leve e muito menos ostensiva. Na manifestação da tarde do dia 5 contou-se com tropa de choque devidamente armada (gás, bala de borracha, armas de fogo), polícia militar a pé, em viaturas e motocicletas além da cavalaria. A manifestação se deslocou com dificuldade e sob tensão constante de ser atacada pelo aparelho repressivo do Estado da praça Saens Peña até a praça Afonso Pena. A proposta inicial era realizar uma marcha até as proximidades do estádio do Maracanã, o que foi impedido com violência pela tropa de choque. Diante da impossibilidade de continuar e dos riscos para a população ao redor da praça decidiu-se pela dispersão. Percebe-se, assim, claramente como são tratados os movimentos sociais considerados mais radicais por não aceitarem compor com as regras de um estado de exceção altamente militarizado nem com partidos e sindicatos alinhados com um programa de tomada ou retomada de poder. As pautas que se mantiveram entre aqueles que compareceram neste último ato estão centradas nos problemas que já foram denunciados no relatório Megaeventos e Violações de Direitos Humanos no Rio Janeiro. Dossiê do Comitê Popular da Copa e Olimpíadas do Rio de Janeiro publicado em 2014 (acessível: https://goo.gl/Ntdi5R) e que se intensificaram ao longo dos últimos dois anos, ou seja, a crescente militarização dos espaços públicos e das relações entre cidadãos e poder público, a milhares de pessoas removidas de suas casas, o impacto ambiental não evitado, as violações dos direitos trabalhistas, as intervenções urbanas arbitrárias e desnecessárias e a instalação de equipamentos esportivos cujo uso após o fim dos jogos é ainda questão em aberto. O investimento bilionário (e o lucro bilionário!) em megaeventos coloca em questão a ética, a honestidade e os interesses da classe política e empresarial em detrimento das necessidades mais básicas e dos direitos mais fundamentas da grande maioria da população. Um deles, o da educação de qualidade e gratuita, foi um dos pontos de coesão de boa parte dos coletivos presentes na praça Saens Peña, como deixa claro a publicação Avante! (Boletim Nacional da RECC, no. 12, primeiro semestre de 2016) denunciando a precarização do ensino público fundamental, básico e secundário e o programa de privatização e terceirização da educação. Este e outros movimentos nascidos das ocupações secundaristas continuam convocando para uma intensificação das ações diretas lembrando o exemplo das escolas de SP, GO, RJ e CE. O descrédito das entidades de representação estudantil é explícito, como o é, simetricamente, o de outros sindicatos e partidos segundo a polarização interna da esquerda evidenciada mais acima: “O método de ocupação é defendido pela RECC desde sua fundação por possibilitar o método de decisão por assembleia, onde todas as vozes de estudantes têm o mesmo peso; a inversão das relações de poder e o incentivo à imaginação dos estudantes que passam a ter capacidade deliberativa, enxergando-se como agentes da história. Diante disso é necessário avançar ainda mais! Construindo um encontro nacional das escolas ocupadas que seja um embrião de uma federação autônoma estudantil diante de partidos e entidades pelegas (UNE, UBES e ANEL) e superando o isolamento das escolas fragmentadas para gerar força e organização capaz para resistir aos próximos períodos de ataque a educação no país!” [grifo nosso].

Boletim Conexões em Luta 01.08.2016

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Olympias Brasil

A palavra olimpíadas, tem origem semântica no latim e vem do termo olympias, sua definição de modo geral, expressa a competição em que se tenta demonstrar um determinado conhecimento numa área específica. Nesse ensejo, a política brasileira, coleciona especialistas nas modalidades mais desprezíveis em termos de compromisso com o povo brasileiro. O destaque da semana foi para Eduardo Cunha, colecionador de envolvimentos em corrupção: na Lava Jato, é réu em duas ações penais, acusado de receber propina de negócios da Petrobras. Ele também é investigado em outros três inquéritos por suposto uso do cargo para beneficiar aliados em troca de vantagens indevidas, o nobre jogador congressista, também foi denunciado por participação em um esquema de corrupção na Caixa.
Na última quarta-feira, (14), celebrou sua saída da presidência da câmara com um churrasco. Avalie você qual medalha esse atleta político merece.

Ainda para refletir as modalidades que a política brasileira apresenta, uma onda de assassinatos vem acontecendo com lideranças políticas na baixada fluminense (RJ), dez pré-candidatos a vereadores foram executados, o clima de tensão se figura na frase: “matar quem atrapalha”. Esse cenário é um alerta para aonde caminha a política brasileira, fora da legalidade.

E na Vila Olímpica, as delegações de vários países reclamaram das instalações e infra-estrutura, segue o Top 7 das queixas:
1 – “É natural que tenha algum ajuste a ser feito, mas vamos fazer os australianos se sentirem em casa aqui. Estou quase botando um canguru para pular na frente deles.” Eduardo Paes, prefeito da cidade do Rio.
2 – Imprensa alemã cita “lista de problemas dramática” na Vila.
3 – No mural da vila, atleta queniano desabafa: “Por favor, consertem meu banheiro”.
4Delegação da Austrália se nega a ficar hospedada na Vila Olímpica do Rio; delegação se queixa de problemas de eletricidade, água, gás e “muita sujeira” nas instalações. Inacabada, Vila tem abertura marcada por abandono de delegação e furto.
5Imprensa dos Estados Unidos adota tom crítico em relação aos Jogos Olímpicos.
6 – Comitê argentino faz criticas à Vila Olímpica: inabitável.
7 – Chefe de delegação argentina suspeita de sabotagem em obras da Vila Olímpica.

Se os governos do Pezão e Eduardo Paes tratam assim atletas olímpicos, imagine como é tratada a população menos favorecida das áreas carentes!

Boletim Conexões em Luta 25.07.2016

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Foto: Felipe Barcellos

Bem-vindos ao Caos.

O Datafolha surgiu em 1983, dada a necessidade do Jornal Folha de São Paulo em quantificar a opinião do público sobre vários assuntos do cotidiano, mas no decorrer de sua trajetória ganhou independência e referência, como um dos principais institutos de opinião pública. No entanto, nesses últimos dias, ficou escancarado seu caráter enviesado para atender aos interesses do conluio golpista.
O destaque mais grotesco da pesquisa de um dos principais veículos de ampla circulação e defensora do impedimento foi afirmar que: apenas 3% dos brasileiros querem novas eleições e que 50% estão satisfeitos e querem que Temer continue na presidência, além de omitir parte da pesquisa para o grande público. A repercussão dessa pesquisa evidenciou a manobra política para manipular a opinião pública sobre os verdadeiros acontecimentos políticos do país. E evidência que longe de estarmos com uma democracia consolidada nossas instituições, ao contrário do que muito se afirma nos grandes meios de comunicação, está fragilizada.

Curiosamente, este mesmo jornal chegou a sair em defesa do “Fora todos”. A pergunta que fica é: o que motivou essa mudança de opinião a ponto de usar e elevar a máxima do jargão estatístico, “estatística é a arte de torturar os números até que eles confessem”. E eles sempre confessam. Talvez, um fato que a pesquisa deixou passar por “despercebido” é a ascensão do presidente Lula nas intenções de votos nas próximas eleições para 2018. O que a elite política anacrônica desse país não aprendeu nesses últimos doze anos, e não ouviram os clamores que começaram em 2013, é que a população brasileira, quer o aprofundamento da seguridade social e não o desmantelamento do aparato social do Estado.

Ainda sobre o aspecto da grande farsa instaurada há dois meses no país, um dos diretores da FIESP, entidade que financiou e apoiou explicitamente o golpe é o maior devedor da União, a dívida de Laudse de Abreu Duarte é maior que a de estados como Bahia, Pernambuco e mais 16 estados da União e corresponde a um montante de 6,9 bilhões.

Notícias como essa, escancaram que grande parte da população brasileira encontrou o som da batucada na panela, mas não a noção do que realmente está em jogo nesse país, e como diz a sabedoria popular, “numa mesa de jogadores se você não sabe quem é o laranja, provavelmente você é o laranja”. Parece que Dilma, acerta quando afirmou no último dia 18, que seu impedimento é para barrar as investigações de corrupção e salva guardar muitos envolvidos com esquemas de fraude.

No palácio da alvorada, o ataque aos direitos sociais não dorme! E a reforma da previdência está na mira do governo interino, a proposta central é desvincular o ajuste da aposentadoria ao salário mínimo, para se ter ideia do ataque que está medida representa aos direitos dos aposentados é válido explicitar que aposentadoria e pensão são pagas para 30 milhões de pessoas que garante não só o seu sustento mas colabora com o complemento de renda familiar, desses 30 milhões, 70% correspondem ao valor de um salário mínimo. Ao desvincular esse ajuste, o país opta por fortalecer as desigualdades sociais e ampliar ainda mais o abismo entre ricos e pobres desse país.

E dentro da tormenta, no caos de absurdos políticos, faltam praticamente uma semana para as Olimpíadas Rio-2016, e os professores cariocas já apresentaram o clima da cidade para os turistas e atletas que desembarcam no aeroporto do Galeão, o samba da retirada dos direitos e o esbanjamento dos gastos públicos com as Olimpíadas. Um contraste que apresenta o passado como futuro, uma ponte que atravessa com a retirada dos direitos sociais e avanço para o privilégio econômico de uma pequena parcela da sociedade.

Conto com aqueles que não me apoiam, mas defendem a democracia, diz Dilma

Nesta segunda (18), a presidente Dilma Rousseff (PT) arrancou risos e aplausos do auditório repleto de estudantes da Universidade Federal do ABC, em São Paulo, ao afirmar que está ficando chato defender o impeachment sem crime de responsabilidade. Afastada pelo Senado, Dilma lembrou da perícia contratada pela comissão especial e das decisões do Ministério Público Federal indicando que as pedaladas fiscais não são crimes.

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“Não tenho crime de responsabilidade. A coisa está ficando chata. A comissão de impeachment fez uma perícia e disse que não há crime de responsabilidade. Na semana passada, o Ministério Público Federal disse que a pedalada não é irregular. E, se caracterizar [irregularidade], todos os presidentes serão culpados. Portanto, não há crime nesse caso, e [o MPF] mandou arquivar. Por isso, a situação está ficando desagradável”, disse Dilma.

Na visão da presidente, seu retorno ao poder deve ser defendido por todos que defendem a democracia e a estabilidade e autonomia das instituições. “Eu conto, sobretudo, com aqueles que não apoiam meu governo, mas têm compromisso com a democracia”, apontou. A petista apareceu numa sondagem do Datafolha no último final de semana, com 32% dos entrevistados pedindo a sua volta, ante 50% que preferem Michel Temer no poder.

Dilma fez paralelos com a tentativa de golpe militar que ocorreu na Turquia, destacando que a situação aqui é diferente. “Se você imaginar que no golpe militar há um machado quebrando a árvore da democracia, destruindo junto o governo eleito, no caso do golpe parlamentar ou institucional, você tem um parasita roendo a árvore”, disse Dilma, afirmando que o caso do Brasil é de golpe branco.

“Para livrar a árvore dos parasitas, é preciso oxigênio” e, segundo Dilma, o oxigênio dessa crise é a “arma da crítica”, que seria a união de todos que são contrários ao golpe, mesmo que não sejam necessariamente defendores de seu governo.

No evento na UFABC, Dilma criticou ações do governo interino de Michel Temer, como a seleção de um ministério de “homens brancos e ricos, sem mulheres, sem negros, sem outro tipo de representação”. Ela também disparou contra o projeto que estabelece um teto para os gastos públicos, afirmando que não haverá dinheiro para custear saúde e educação, contra as mudanças no regime de partilha e concessões do pré-sal, além da postura de desrespeito com a América Latina por parte do novo ministro de Relações Exteriores, José Serra.

A presidente eleita saiu em defesa de agendas de esquerda, como o fim dos oligopólios de mídia, o respeito à diversidade, além de debater investimentos em educação superior, ciência e inovação.

Terceiro turno e fantasia da crise

Segundo Dilma, o impeachment foi criado num contexto de terceiro turno eleitoral estimulado pela oposição ao PT. “Eles tinham certeza que ganhariam a eleição. Eles chegaram a comemorar a vitória. E perderam. Perderam a eleição no segundo turno, e abriram um terceiro turno. Pediram recontagem de votos, auditoria das urnas, impedir que eu fosse diplomada. Criaram as pautas-bomba.”

“Ademais, o impeachment tem o intuito de ‘parar a sangria’ e não deixar a investigação [Lava Jato] chegar muito próximo deles. Eu acredito que temos de ter clareza: uma parte da grande mídia, uma parte dos setores da oposição, uma parte do empresariado, todos fizeram parte desse golpe. Aí, foi vendida a eles a fantasia de que é fácil sair da crise. Basta ‘ela’ se afastar que a crise acaba. Como se a crise fosse fruto do meu governo. Nenhum deles reconhece que todos os países emergentes entraram em crise.”

 

Fonte original: Jornal GGN

O mal inglês

franco

Texto por: Franco Berardi “Bifo”

Tradução: Simone Paz Hernández, ativista do Conexões em Luta

Eu não acreditava no Brexit, achava que somente um povo de bêbados poderia decidir uma catástrofe autodestrutiva desse calibre. Já me esquecia de que os ingleses são de fato um povo bêbado. Estou brincando, naturalmente, dado que nem acredito na existência de povos. Mas acredito na luta de classes, e que a decisão dos trabalhadores ingleses de afundar a União Europeia (UE) de forma definitiva, é um ato de desespero que se segue à violência do ataque financeiro que, há anos, empobrece os trabalhadores do continente inteiro e dessa ilha miserável.

Infelizmente, os trabalhadores ingleses que votaram massivamente no Brexit, cometeram um erro colossal, como costuma acontecer com aqueles que – devido a um empobrecimento material e psíquico – perderam a bondade do intelecto. É verdade que a UE tem se tornado um monstro neoliberal, porém, a origem da demência neoliberal, que está destruindo a Europa e que detona o mundo inteiro há quarenta anos, estava no país de Margaret Thatcher. Não é a Inglaterra que deve sair da UE, senão a UE que deve sair da Inglaterra. Lamentavelmente, já é tarde para isso, pois a UE – após ter adquirido o mal inglês – atualmente se reduziu a ser um aparelho de empobrecimento da sociedade, precarização do trabalho e concentração do poder em mãos do sistema bancário. Grande parte das motivações que levaram os trabalhadores ingleses a votar a favor do Brexit são compreensíveis.

Mas o problema não se encontra nas razões, ele está nas consequências. A União Europeia deixou de existir faz tempo, pelo menos desde julho de 2015, quando Syriza foi humilhado e o povo grego submetido. Talvez precisemos de uma Europa mais política, como repetem ritualisticamente as esquerdas a serviço dos bancos? Há anos acreditamos no conto de fadas de uma Europa que deve tornar-se mais política e democrática. Também nós acreditamos nesse conto, lamento informar, mas jamais foi essa uma possibilidade realista. A UE é uma armadilha financeira desde Maastrich.

A matéria de Paolo Rumiz (“Come i Balcani”), publicada no dia 23 de junho passado, no La Reppubblica, diz uma coisa que já me parecia clara há um certo tempo: o futuro da Europa é a Iugoslávia de 1992. Rumiz acerta, porém se esquece do papel que o Deutsche Bank teve no empurrão dado aos iugoslavos para a guerra civil – questão na qual Wojtila também fez sua parte.

Acredito que agora devemos dizê-lo sem eufemismos: o futuro da Europa é a guerra. Seu presente consiste na guerra contra os imigrantes, que já custou milhares de mortos e uma quantidade incomensurável de violência. Talvez isto soe um pouco ultrapassado, mas, pelo menos para mim, continua sendo verdade que o capitalismo traz a guerra, assim como a nuvem traz a tempestade.

O que fazer em casos como esse? Paramos a guerra impondo os interesses da sociedade acima dos financeiros? Naturalmente, sim, quando isto é possível. Porém, deter a guerra hoje em dia não é possível, porque a guerra já está em andamento, embora até o presente momento os mortos sejam dezenas de milhares de migrantes num Mediterrâneo cuja água salgada já substituiu o Zyklon B.

Os movimentos foram destruídos um a um. E então? Então passa-se à outra parte do adagio[1] leniniano (aproveito para apontar, a quem tivesse dúvidas, que nunca fui leninista e que não pretendo me tornar um agora). Transforma-se a guerra imperialista em guerra civil revolucionária.

O que isto significa? Não sei, e ninguém saberá hoje em dia. Mas nos próximos anos, acho que teremos de pensar unicamente nessa questão. Não em formas de salvar a UE: que o diabo a leve embora. Não em como salvar uma democracia que jamais existiu, mas em como transformar a guerra imperialista em guerra civil revolucionária. Pacífica e sem armas, se for possível. Guerra dos saberes autônomos contra o controle e a privatização.

Concluindo, não carrego um luto pelos ingleses irem embora. Fiquei de luto quando os gregos foram obrigados a permanecer sob as condições que lhes foram impostas (e o que será deles agora?). Cem anos após Outubro, acredito que nosso dever é de nos perguntarmos: o que significa Outubro na era da Internet, no trabalho cognitivo e precário? O precipício que temos à nossa frente é o lugar no qual devemos pensar nisso.

 [1] Adagio, em italiano, quer dizer: 1. m. Mús. Movimento lento. / 2. m. Mús. Composição ou parte dela que deve se executar feito adagio.

Sobre o autor: Franco “Bifo” Berardi é filósofo, participou do movimento autonomista italiano dos anos 70, é militante marxista e cofundador da lendária rádio pirata Alice. Ele também trabalhou com Félix Guattari no fim dos anos 70. Atualmente, Bifo ensina História Social das Mídias em Milão. Publicou, entre dezenas de obras, “Teoria del valore e rimozione del soggetto: critica dei fondamenti teorici del riformismo”; “La pantera e il rizoma”; “Come si cura il nazi.”; “Neuromagma. Lavoro cognitivo e infoproduzione”; “La fabbrica dell’infelicità: new economy e movimento del cognitariato”; “Skizomedia. Trent’anni di mediattivismo”; “Heroes: Mass Murder an Suicide”.

Texto original: http://comune-info.net/2016/06/inglese-brexit/

Considerações sobre o golpe parlamentar do ponto de vista da economia dos conflitos sociais – um quadro-síntese

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Texto por: Marcelo Phintener

O atual golpe parlamentar refletiu a insatisfação de setores da classe dominante para com os governos petistas, mesmo sendo o PT pró-capital. Propagandeada pela grande mídia, que se aproveitou da situação para estimular ressentimentos econômicos e sociais, a estratégia golpista vendeu a ideia de que tudo está errado no Brasil. Logo, é culpa do PT. Mas, como na “história os acontecimentos correm preenchidos por um emaranhado de sinais, um tanto deles contraditórios”, um tanto ocultos, nem tudo é preto no branco.
Nesse sentido, ao analisar a recente história econômica do Brasil, notadamente no período dos governos Lula (2003-2006, 2007-2010), nota-se que os capitalistas não só “aplaudiam” a maneira como a tecnocracia petista geria a economia no país como toleravam e apoiavam suas “políticas compensatórias de esquerda”. Para se ter ideia da comunhão entre capitalistas e Governo Federal, no auge da crise do mensalão, conforme observou um cientista social, a grande burguesia, sobretudo sua fração industrial, não abandonou o governo Lula. E assim quadrantes variados das classes dominantes seguiam satisfeitos com a gestão petista de “remodelação interna do capitalismo”. Esta satisfação, ou talvez, mais precisamente, esta aposta admitia a capacidade do PT de travar a luta de classes, porque conhecia por dentro os mecanismos de funcionamento da classe trabalhadora, convertendo-a em aumento da produtividade.
No entanto, o tempo passou, e, como na política − que é economia, que é política − não existe fidelidade, mas apostas, na sequência dos acontecimentos as coisas começam a mudar. Nesses termos, em 2011 começam a se esboçar os primeiros sinais de insatisfação. Na ocasião, Dilma I (2011-2014) enfrenta sua primeira crise econômica que, segundo analistas de linhagem desenvolvimentista, teve muito mais a ver com a mudança de ideia na condução da política econômica do governo que com a desaceleração mundial provocada pela crise na zona europeia do capitalismo. Em suma, em vez de dinamizar a economia com incentivo ao aumento do consumo e aos gastos públicos e privados, optou-se por estratégia de contenção econômica com redução de investimento, cujo objetivo foi auxiliar a política monetária.
Nessas circunstâncias, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro saiu dos 7,5% em 2010, para 3,9% em 2011. Mesmo diante de um ambiente de desaquecimento da atividade econômica, houve estabilidade do desemprego, que se manteve em níveis historicamente baixos, saindo de 5,3% em 2010 para 4,7% em 2011, conforme Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Nesse caso, o quadro de baixo crescimento econômico ainda não chegara a comprometer o emprego e renda do trabalhador, talvez por conta da herança de crescimento deixada de 2010 a 2011, como observou o economista João Sicsu.
Em meados de 2012, o governo federal adotou “nova matriz econômica”, cuja finalidade, em síntese, era: alavancar a produção, retomando o crescimento econômico conjugado com o desenvolvimento social, ou seja, com redução das desigualdades. Em linhas gerais, o pacote de política econômica era composto por “queda nos preços de energia, desvalorização cambial, queda na taxa de juros, expansão do crédito (para famílias e empresas), desoneração tributária, como diminuição de tributos voltados a bens de consumo e aumento do gasto estatal em infraestrutura”.
No entanto, a aposta não funcionou, e sua materialização revelou resultados negativos no conjunto da economia a partir de 2014, conjugando retração econômica, aumento da taxa de desemprego e culminando no crescimento negativo do PIB em 2015, em −3,8%. No período de 2003 a 2010, o PIB brasileiro cresceu a uma taxa média de 4,1%, período este marcado por razoável estabilidade das taxas de crescimento econômico aliado à inclusão social. Ao passo que no período de 2011 a 2015, o crescimento médio não passou de 1%, número que expressa a trajetória de desaceleração da economia a partir de 2011, e que vai se traduzir em taxas de desemprego maiores e desaceleração da taxa de crescimento dos rendimentos dos trabalhadores, por exemplo.
Em artigo publicado em abril de 2016, portanto, já com os contornos dos acontecimentos mais precisos, André Singer observou que, na ocasião do primeiro mandato de Dilma Rousseff, uma coalizão capitalista vinha a desenhar-se na direção de ajustes recessivos na economia brasileira, numa perspectiva de diminuir salários e flexibilizar direitos sociais. De certa forma, pode-se constatar que tal coalizão apostou as suas fichas na derrota eleitoral de Dilma I em 2014 e, em seguida, investiu na desestabilização e derrubada de Dilma II. Continuando nas pistas desse observador, esses acontecimentos apresentam evidências de que, a partir de 2013, tem início um boicote ao governo, materializado pela dissolução da coalizão capitalista que o apoiava. Nesse contexto, estavam criadas e justificadas as condições econômicas para difundir uma oposição de direita ao PT.
De certo modo, o exposto até aqui se apresenta como evidência de que o golpe parlamentar pode ter sido gestado em 2012, 2013, pelo menos no seu conteúdo econômico, e tem no seu enunciado a intensificação do conflito redistributivo, sob o pretexto de que a “crise econômica derivaria do desajuste fiscal provocado pelos gastos com direitos sociais acolhidos pela Constituição Federal”. Ou seja, a Constituição de 1988 não acabe no PIB, tendo em vista que conquistas sociais passam a ser entraves para acumulação de capital em períodos de baixo crescimento econômico. E, nesta esteira, uma questão: no quadro de conciliação de classes, o modelo petista de gerir a economia e administrar os conflitos sociais seria um entrave para essa nova fase de expansão do capital, dado que o tipo de capitalismo operado pelo PT, ao incluir o conjunto da sociedade no orçamento e ceder limitadamente às reivindicações dos trabalhadores, consagra a mobilidade social ascendente e, de certo modo, tende a encurtar o “espaço de cobertura plena dos interesses dos ricos”? E agora, então, é a vez de resolver no golpe?

Projeto Campo Dr. Sócrates Brasileiro

[DIVULGAÇÃO]

O Conexões em Luta vem divulgar um belo projeto realizado pela Associação de Amigos da Escola Nacional Florestan Fernandes, a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e a Escola Nacional Florestan Fernandes para a construção Campo de Dr. Sócrates Brasileiro.

O projeto está sendo financiado por uma plataforma de financiamento coletivo, onde os interessados podem fazer as doações, com direito a recompensas já estipuladas na página.

Apresentamos abaixo o vídeo da campanha, juntamente com a descrição contida no site da plataforma de financiamento coletivo.

COLABOREM!

O projeto

Para o escritor uruguaio Eduardo Galeano, o futebol é a única religião que não tem ateus”. O futebol que democratiza que politiza, que norteia, que se manifesta e que revoluciona.

Esse é o futebol que buscamos e que queremos. Esse é o futebol que sabemos fazer.

O que significa e por que queremos construir um campo de futebol na ENFF?

O campo será um espaço de saúde e lazer que atenderá os mais de 200 educandos e educandas que frequentam a escola para estudar por semanas ou meses.

Além disso, o projeto atenderá as crianças das comunidades de Guararema, local em que a ENFF está instalada. O espaço também servirá de ponto de encontro e apoio de times populares.

Por que homenagear Dr. Sócrates Brasileiro?

Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira (Magrão), não foi só um jogador de futebol, foi a representação da democracia num momento de mercantilização de uma de nossas maiores artes.

Dentro dessa perspectiva, a construção de um campo de futebol não significa só um espaço de lazer, mas um lugar de pensamento político, coletivo e democrático, que tem como objetivo reunir através do esforço popular todos os valores contidos no punho esquerdo de Sócrates.

Sócrates Brasileiro

Sobre o ENFF

Batizada com o nome de um dos maiores sociólogos e políticos brasileiros, a ENFF é resultado da ideia, da força, do trabalho voluntário, da persistência e solidariedade de diversos atores sociais.

Foram mais de 1000 pessoas, entre homens e mulheres, organizadas em 25 brigadas de trabalhadores voluntários de 112 assentamentos e 230 acampamentos de diversos estados brasileiros. Esse foi o contingente total para construir o que ficou conhecido com Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), que em 2015 completou 10 anos.

Por que fazer isso através de financiamento coletivo?

Assim como a ENFF, o campo será uma construção de muitas mãos. Enxergamos no financiamento coletivo mais do que uma contribuição. Nossa ideia é construir um espaço que terá um pouco de cada um daqueles que acreditam no poder transformador da educação e do esporte.

Essa é a primeira etapa do projeto – que está sendo feito pelo Laboratório de Habitação (LabHab) da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU), que também prevê a construção de um memorial e de uma pista de corrida.

Na fase inicial da campanha, priorizaremos a construção do campo. O valor arrecadado servirá para nivelamento do terreno, inclinação, drenagem e irrigação, além da colocação do gramado e arquibancadas.

Os apoiadores serão informados periodicamente sobre o processo de construção que deve durar cerca de seis meses.

O projeto está feito em conjunto com Associação de Amigos da Escola Nacional Florestan Fernandes, a FAU e a ENFF. A conclusão da fase inicial está prevista para dezembro de 2016.

Esse é um sonho coletivo e compartilhado que está apenas começando. Venha fazer parte dessa história!

Orçamento

Abaixo detalhamento dos gastos do projeto

O orçamento

O orçamento do campo se compõe emitentemente de gastos com regularização do terreno, compactação de terra e drenagem do campo. A drenagem é o elemento de maior custo da composição, pois consiste em toda uma preparação de camadas abaixo da superfície, em que haverá drenos, camas drenantes de brita, areia e, sobre estas, o plantio de grama apropriada para campo de futebol, além da instalação de traves e pintura para demarcação das linhas do campo.

Abaixo detalhamento do projeto

Item Valor orçado
Regularização do terreno do campo, compactação

e drenagem

40.000,00
Iluminação da quadra 10.000,00
Plantio de grama 1.000,00
Traves e pinturado campo 4.000,00
Material para arquibancada 5.000,00

Gilmar Mendes, oferece café a Renan, Jucá e outros aliados de Temer

Jornal GGN – Gilmar Mendes, presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), ofecereu na manhã desta quinta-feira (30) um café da manhã para Romero Jucá (PMDB), Renan Calheiros (PMDB) e membros do PSDB e PRB, todos aliados do presidente interino Michel Temer (PMDB).

Segundo informações publicados pela Agência Estado, Gilmar concedeu uma entrevista afirmando que o motivo do encontro foi a discussão de uma agenda mínima de reforma política que inclui as propostas de imposição de cláusula de barreira e fim das coligações partidárias. As eleições 2016 também estiveram em pauta.

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“Segundo Mendes, o encontro buscou aproximar as instituições e mostrar as dificuldades em relação à próxima eleição. A principal delas, segundo o ministro, é a proibição das doações de pessoas jurídicas”, anotou a Agência Estado. Gilmar teria dito que “é um quadro especial” e que a conversa era necessária entre lideranças que podem garantir mudanças no modelo eleitoral.

O ministro do Supremo Tribunal Federal passou mais de um ano segurando, por pedido de vistas, uma ação da OAB que pediu o fim do financiamento privado de campanha. Gilmar, por diversas vezes, disse publicamente que a medida de nada adiantaria e só aumentaria os casos de corrupção com formação de caixa 2 de campanha.

STF/MENSALAO

Gilmar também convidou as lideranças partidárias a participarem da verificação das urnas eletrônicas, processo que ocorre costumeiramente antes das eleições.

Quanto à reforma política, foi discutido que o grupo tentaria viabilizar a cláusula de barreira – derrubada pelo Supremo há alguns anos – e no fim da coligação proporcional. As medidas reduziriam a quantidade de partidos com representantes no Congresso. A fragmentação partidária foi um dos principais obstáculos ao governo Dilma Rousseff (PT).

Estiveram presentes no encontro o primeiro-secretário da Câmara Beto Mansur (PRB-SP), o senador Cássio Cunha Lima (PB), o senador Ricardo Ferraço (PSDB) e o deputado Osmar Serraglio (PMDB).

 

Fonte: JornalGGN

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