O mal inglês

franco

Texto por: Franco Berardi “Bifo”

Tradução: Simone Paz Hernández, ativista do Conexões em Luta

Eu não acreditava no Brexit, achava que somente um povo de bêbados poderia decidir uma catástrofe autodestrutiva desse calibre. Já me esquecia de que os ingleses são de fato um povo bêbado. Estou brincando, naturalmente, dado que nem acredito na existência de povos. Mas acredito na luta de classes, e que a decisão dos trabalhadores ingleses de afundar a União Europeia (UE) de forma definitiva, é um ato de desespero que se segue à violência do ataque financeiro que, há anos, empobrece os trabalhadores do continente inteiro e dessa ilha miserável.

Infelizmente, os trabalhadores ingleses que votaram massivamente no Brexit, cometeram um erro colossal, como costuma acontecer com aqueles que – devido a um empobrecimento material e psíquico – perderam a bondade do intelecto. É verdade que a UE tem se tornado um monstro neoliberal, porém, a origem da demência neoliberal, que está destruindo a Europa e que detona o mundo inteiro há quarenta anos, estava no país de Margaret Thatcher. Não é a Inglaterra que deve sair da UE, senão a UE que deve sair da Inglaterra. Lamentavelmente, já é tarde para isso, pois a UE – após ter adquirido o mal inglês – atualmente se reduziu a ser um aparelho de empobrecimento da sociedade, precarização do trabalho e concentração do poder em mãos do sistema bancário. Grande parte das motivações que levaram os trabalhadores ingleses a votar a favor do Brexit são compreensíveis.

Mas o problema não se encontra nas razões, ele está nas consequências. A União Europeia deixou de existir faz tempo, pelo menos desde julho de 2015, quando Syriza foi humilhado e o povo grego submetido. Talvez precisemos de uma Europa mais política, como repetem ritualisticamente as esquerdas a serviço dos bancos? Há anos acreditamos no conto de fadas de uma Europa que deve tornar-se mais política e democrática. Também nós acreditamos nesse conto, lamento informar, mas jamais foi essa uma possibilidade realista. A UE é uma armadilha financeira desde Maastrich.

A matéria de Paolo Rumiz (“Come i Balcani”), publicada no dia 23 de junho passado, no La Reppubblica, diz uma coisa que já me parecia clara há um certo tempo: o futuro da Europa é a Iugoslávia de 1992. Rumiz acerta, porém se esquece do papel que o Deutsche Bank teve no empurrão dado aos iugoslavos para a guerra civil – questão na qual Wojtila também fez sua parte.

Acredito que agora devemos dizê-lo sem eufemismos: o futuro da Europa é a guerra. Seu presente consiste na guerra contra os imigrantes, que já custou milhares de mortos e uma quantidade incomensurável de violência. Talvez isto soe um pouco ultrapassado, mas, pelo menos para mim, continua sendo verdade que o capitalismo traz a guerra, assim como a nuvem traz a tempestade.

O que fazer em casos como esse? Paramos a guerra impondo os interesses da sociedade acima dos financeiros? Naturalmente, sim, quando isto é possível. Porém, deter a guerra hoje em dia não é possível, porque a guerra já está em andamento, embora até o presente momento os mortos sejam dezenas de milhares de migrantes num Mediterrâneo cuja água salgada já substituiu o Zyklon B.

Os movimentos foram destruídos um a um. E então? Então passa-se à outra parte do adagio[1] leniniano (aproveito para apontar, a quem tivesse dúvidas, que nunca fui leninista e que não pretendo me tornar um agora). Transforma-se a guerra imperialista em guerra civil revolucionária.

O que isto significa? Não sei, e ninguém saberá hoje em dia. Mas nos próximos anos, acho que teremos de pensar unicamente nessa questão. Não em formas de salvar a UE: que o diabo a leve embora. Não em como salvar uma democracia que jamais existiu, mas em como transformar a guerra imperialista em guerra civil revolucionária. Pacífica e sem armas, se for possível. Guerra dos saberes autônomos contra o controle e a privatização.

Concluindo, não carrego um luto pelos ingleses irem embora. Fiquei de luto quando os gregos foram obrigados a permanecer sob as condições que lhes foram impostas (e o que será deles agora?). Cem anos após Outubro, acredito que nosso dever é de nos perguntarmos: o que significa Outubro na era da Internet, no trabalho cognitivo e precário? O precipício que temos à nossa frente é o lugar no qual devemos pensar nisso.

 [1] Adagio, em italiano, quer dizer: 1. m. Mús. Movimento lento. / 2. m. Mús. Composição ou parte dela que deve se executar feito adagio.

Sobre o autor: Franco “Bifo” Berardi é filósofo, participou do movimento autonomista italiano dos anos 70, é militante marxista e cofundador da lendária rádio pirata Alice. Ele também trabalhou com Félix Guattari no fim dos anos 70. Atualmente, Bifo ensina História Social das Mídias em Milão. Publicou, entre dezenas de obras, “Teoria del valore e rimozione del soggetto: critica dei fondamenti teorici del riformismo”; “La pantera e il rizoma”; “Come si cura il nazi.”; “Neuromagma. Lavoro cognitivo e infoproduzione”; “La fabbrica dell’infelicità: new economy e movimento del cognitariato”; “Skizomedia. Trent’anni di mediattivismo”; “Heroes: Mass Murder an Suicide”.

Texto original: http://comune-info.net/2016/06/inglese-brexit/

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s