Imprensa e Historiadores: onde está a verdadeira “quadrilha”?

Imprensa e Historiadores: onde está a verdadeira “quadrilha”?

Por Luiz Antonio Dias – Conexões em Luta

No jornal Folha de S. Paulo, de 25/06/2016, o colunista Demétrio Magnoli apresentou uma forte crítica sobre a atuação do movimento “Historiadores pela Democracia”. Afirmou, em um texto intitulado “Formação de Quadrilha”, que: “Eles decidiram (ou, de fato, o Partido decidiu) que o impeachment é ‘golpe’ –e isso, antes mesmo da deliberação final do Senado. Querem inscrever nos livros de história a versão útil para o Partido. Não é história, mas propaganda política coberta pelo manto da autoridade historiográfica.”

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Interessante destacar que esse mesmo periódico já serviu para propagandear ideias como a “Ditabranda”, sustentando que a Ditadura Militar Brasileira não foi tão violenta, ou a “Ditacurta”, defendendo que ela não foi tão longa assim. Quando verificamos que parte da grande imprensa – todos os jornalões – agiu nesse sentido, ou seja, tentou reduzir a importância e violência da ditadura para legitimar sua ação em 1964, nos perguntamos: quem, de fato, estaria formando uma “quadrilha”?

No dia 30 de março de 2014, um domingo, a Folha de S. Paulo publicou um editorial intitulado “1964”. Neste texto, procurou justificar sua participação ou omissão no episódio: “Aquela foi uma era de feroz confronto entre dois modelos de sociedade – o socialismo revolucionário e a economia de mercado (…). A direita e parte dos liberais violaram a ordem constitucional em 1964 e impuseram um governo ilegítimo (…) parte da esquerda forçou os limites da legalidade na urgência de realizar, no começo dos anos 60, reformas que tinham muito de demagógico(…)”

De acordo com as análises desse periódico, foi a direita que violou a ordem e impôs aos brasileiros um governo ilegítimo e entreguista. A estratégia de imputar ao outro a responsabilidade pelos erros e mazelas do passado é conhecidamente eficiente e tem como escopo principal deixar para as notas de rodapé da história a participação dos derrotados nos combates. Daí a necessidade do jornal em reafirmar em 2014 que nem todas as criticas à ditadura são justas e fundamentadas. Justifica, assim, a sua posição de simpatia ao movimento militar com a infalível apresentação de dados econômicos e sociais que confirmam o crescimento da economia no período e a consequente melhoria na condição de vida de todas as camadas sociais da nação.  Assim, argumentam que – mesmo que de forma desigual – houve melhoras na educação e na saúde públicas que podem ser facilmente constatadas pelos dados “oficiais” do período. Reclamam, nesse mesmo editorial, finalmente que não se pode cobrar “(…) desta Folha, ter apoiado a ditadura durante a primeira metade de sua vigência, tornando-se um dos veículos mais críticos na metade seguinte. Não há dúvida de que, aos olhos de hoje, aquele apoio foi um erro”.

Na cômoda posição em que se encontra hoje, de maior jornal do país, a Folha de São Paulo constrói um discurso sobre os fatos que desencadearam a crise de 1964 e reescreve o passado de maneira seletiva para conseguir a absolvição no tempo presente.  Forja, assim, a emergência de uma nova e heroica memória ao destacar que foi um dos principais críticos na segunda fase do regime militar. Reforça, com isso, a construção de uma imagem de intransigente defensor dos direitos humanos e da tão almejada redemocratização do país. Assim, a legitimidade conferida pela Folha de S. Paulo para os eventos de 1964 é reafirmada em 2014.

A forma como a imprensa retratou – e continua retratando – os eventos relacionados a 1964 acabou por reforçar uma imagem de inevitabilidade do “movimento militar” e de sua necessidade histórica. Ressalte-se que a palavra “golpe” raramente apareceu impressa nas páginas dos grandes jornais, mesmo em 2014 na rememoração do episódio. Temos aqui uma maneira bem peculiar de escrever a história que leva o narrador a isentar os “erros” dos agentes do passado, a fim de construir os entendimentos do tempo presente. Isso é um “sequestro da história”, ignorar fatos, documentos, desqualificar análises acadêmicas e memórias pessoais configura-se como um novo “Golpe”. Ao legitimar as ações do Estado Militar como necessárias para conter os comunistas, o caos, a desordem e a crise econômica, o jornal iguala agressores e vítimas. Defende, pois, que o que foi feito no passado tinha a nobre missão de assegurar um futuro luminoso para os brasileiros. As batalhas de 1964 continuaram sendo travadas em 2014 – batalhas pela memória, pelo lembrar e pelo esquecer. Convocam-se assim, todos, para um processo de esquecimento do vivido e lembrança do imaginado.

Esse jornal demorou anos para assumir que ocorreu um Golpe em 1964, para depois, nas rememorações em 2014, minimizar suas consequências. Como será sua “construção histórica” sobre 2016? Quais serão seus argumentos de “nobreza” no apoio a essa nova ruptura democrática?

A história dirá. Não essa – forjada com “chavões”, acusações e senso comum – mas a verdadeira história, aquela construída com documentos, com argumentação e profundidade analítica, aquela que aceita a divergência, que aceita o debate sem acusar o oponente de criminoso ou “quadrilheiro”.

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