Entrevista com Terra Budini sobre Brexit

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Imagem: REUTERS

O Conexões em Luta entrevistou Terra Budini, professora de Relações Internacionais da PUC-SP, sobre a saída do Reino Unido da União Européia.

Leia abaixo a entrevista na íntegra.

Conexões em Luta: A distribuição de perfil socio-econômico e etário dos votantes e a ditribuição do “sim” e do “não” a permanência do Reino Unido na União Européia de acordo com tais critérios foi muito mencionada nos meio de comunicação logo após o resultado final. O quanto tais dados podem ser de fato significativos para compreendermos as motivações que levaram a maioria a recusar a permanência na UE?

Terra Budini: Acredito que ajudam na compreensão. De forma simplificada, o projeto de integração europeia passou por modificações importantes entre o final dos anos 80 e início dos 90. Após as “décadas de ouro” do Estado de bem estar social, o relançamento da integração no final dos anos 80 assumiu claramente um viés neoliberal. Já naquele momento, a disputa pelo futuro da integração foi vencida pelos setores econômicos do capital mais transnacionalizado, com interesse num projeto de integração inserido e aberto à “globalização”. No Reino Unido a vitória de Tachter em 1979 é emblemática neste sentido. Paralelamente, também neste período passamos a ver uma crescente convergência entre a centro-direita e a social-democracia em torno deste modelo de integração. No Reino Unido esta mudança do partido trabalhista se refletiu nas propostas da chamada terceira via, lideradas por Tony Blair.

Estas mudanças se tornaram mais dramáticas após a crise de 2008 e a clara convergência da centro-direita e da centro esquerda em torno das medidas de austeridade, que intensificaram o desemprego, a precarização do trabalho, o empobrecimento relativo e o aumento nos níveis de desigualdade.

Este quadro ajuda a explicar porque a parcela mais pobre, menos escolarizada e mais atingida pelas políticas neoliberais da UE tenha se inclinado a votar pela saída do bloco. Mas vale lembrar que os setores conservadores que lideraram a campanha pela saída criticam o piso mínimo de proteção trabalhista que existe no âmbito da UE, propõem políticas mais agressivas de flexibilização da legislação e responsabilizam os imigrantes para ganhar adesão eleitoral. Em termos geracionais, a parcela mais velha da população parece ser mais suscetível a este discurso xenófobo.

Mas o critério socioeconômico não esgota as explicações da votação, pois entre os mais jovens e entre aqueles que disputam a identidade britânica, o apoio à permanência do país na UE transcendeu as divisões socioeconômicas. Na Escócia, por exemplo o voto pela permanência ganhou em todas as localidades, é um voto que se cruza com o sentimento pró-independência.

Os mais jovens estão entre os mais afetados pela precarização, mas foram o grupo mais favorável à permanência. Por outro lado, compareceram menos às urnas. É difícil tirar conclusões definitivas, o apoio à permanência não significa necessariamente apoio às atuais dinâmicas da integração. Ou seja, os critérios socioeconômicos e geracionais ajudam a entender, dão pistas, mas não esgotam a questão.  Sobretudo entre os jovens, talvez o caminho seja olhar para a questão das identidades e do engajamento político de outra forma.

CL: Como avaliar o procedimento plebiscitário em si como um caminho viável para a decisão de tais dilemas nacionais e europeus neste momento em que a tão propolada crise de representatividade política poderia ser mais convenientemente traduzida como uma crise de legitimidade dos instrumentos disponíveis de exercício da representação?

TB: Essa questão de fato tem surgido nas análises posteriores à votação da última quinta. Considerando que o comparecimento às urnas foi de cerca de 70%, a decisão de sair foi explicitamente aprovada por apenas 36% do eleitorado britânico. Surgem análises que questionam a pertinência de uma decisão deste tipo ser aprovada de forma tão pontual, sem mecanismos que exijam alguma estabilidade na formação da opinião dos eleitores. Já há notícias de abaixo-assinados com milhões de assinaturas pedindo a realização de uma nova consulta.

Mas o problema de fundo é de fato maior. Plebiscitos e referendos são praticamente os únicos instrumentos de democracia direta existentes na democracia representativa e são raramente utilizados. Num cenário de crise e desencantamento com as instituições representativas, uma consulta pontual deste tipo não parece suficiente para fortalecer a legitimidade das instituições. Não é coincidência que os movimentos políticos de esquerda mais recentes estejam reivindicando e construindo novas formas de organização e prática políticas. Ou seja, a realização de plebiscitos esporádicos não parece ser suficiente para resolver a crise das instituições representativas.

CL: Que relação seria possível estabelecer entre a indignação e os medos populares cotidianamente alimentados pela imprensa e sobretudo pela extrema-direita e o resultado do plebiscito? O quanto a adesão popular a tais ideias (fechamento das fronteiras, xenofobia, crítica das políticas de austeridade como intervenções externas na soberania nacional, identidade nacional etc) é real? O quanto o resultado do voto poderia beneficiar diretamente os setores mais reacionários, por um lado, e mais conservadores, por outro, em futuras eleições?

TB: Acredito que haja forte relação. Há um survey de 2014 do Pew Research Center que mostra um pouco esta correlação, entre a preferência partidária pela direita e a extrema direita e a visão desfavorável de imigrantes, por exemplo. Não é exclusividade da direita, na medida em que também aparece entre aqueles que declaram preferência pela esquerda, mas é significativamente maior.

Mas também tivemos setores de esquerda que fizeram campanha pela saída, por conta das críticas aos rumos neoliberais da UE, da captura da democracia pelos fortes interesses econômicos e da percepção de que qualquer tentativa de reconfiguração da democracia pela esquerda só poderia se dar fora da UE. Este segundo grupo coloca questões semelhantes ao que esteve em debate no plebiscito sobre as medidas de austeridade na Grécia no ano passado.

Portanto há setores de esquerda que defenderam a saída e há chances de que estes setores consigam articular respostas neste cenário, mas são pequenas, pois a vitória da posição que defendia a saída foi, sobretudo, uma vitória do campo mais conservador e reacionário.

CL: O resultado do voto poderia ser entendido como uma derrota em território britânico de um programa econômico excessivamente impositivo capitaneado sobretudo pela Alemanha?

TB: Este elemento existe, principalmente entre os setores de esquerda que defenderam a saída, como disse anteriormente. Mas esta não foi a bandeira dos principais porta-vozes da saída, que foram o UKIP e uma parcela dos conservadores. Ao contrário, estes setores defendem um programa fortemente neoliberal.

CL: O resultado do voto poderia ser entendido como um fracasso das esquerdas em mobilizar a população para questões que não fossem aquelas privilegiadamente da ceara da direita conservadora?

TB: Em parte sim. Como foi dito, na Europa como um todo o apoio popular à grande convergência entre centro-direita e social democracia em torno do atual projeto de integração está se esgarçando cada vez mais. Mas a questão é que grande parte dos setores mais à esquerda também abraçaram o projeto europeu e, ao mesmo tempo, não conseguem alterar os rumos da integração pois são minoritários. O espaço vai sendo ocupado por vários segmentos de direita (conservadores, nacionalistas, anti-imigração).

CL: No que a existência da UE pode ser benéfica para as reivindicações da esquerda, mais especificamente, para os novos movimentos de esquerda ou partidos-movimentos? Estes últimos poderiam ser entendidos como fenômenos tipicamente “europeus” no sentido de tentativas locais de instauração de uma Europa democrática e não apenas econômica?

TB: No formato atual, a institucionalidade da UE não é um terreno favorável para as reivindicações de esquerda.  Em certo sentido, a questão é semelhante ao comentário anterior. O Podemos, por exemplo, critica o atual modelo da UE, a falta de democracia e as medidas de austeridade, mas não propõe exatamente um rompimento com o projeto de integração, propõe a democratização da UE. Mas concretamente as possibilidades de mudança das instituições europeias num sentido democratizante são pequenas no momento. Como estes novos movimentos ou partidos-movimentos partem de uma crítica aos limites das instituições representativas, as experiências locais oferecem um terreno interessante para experimentações. Nesse sentido, há alguns debates a partir das experiências de democratização de administrações municipais, por exemplo, talvez seja possível ter algumas inovações por este caminho.

 

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