Como o golpe no Brasil fragiliza a conexão internacional latino-americana

Além de todos os fatores internos que explicam o golpe, embora não o justifiquem, em hipótese alguma, gostaria de salientar um de caráter internacional. É reconhecido que o Brasil constitui um peso importante na balança da integração latino-americana e também na condução de uma política internacional integrada.  Por outro lado, para o capital internacional e para os governos que o cediam, é importante que os países latino-americanos defendam suas posições individualmente, sem articulação. A velha máxima: dividir para governar.

Ora, a partir de 2000, a população elegeu governantes progressistas que passaram a gestar formas conjuntas de defender os interesses dos países da região. Entre outras coisas, as reivindicações para ter direito de voto ganharam força junto aos organismos internacionais. Pois, conforme vocês sabem, o país que não tem direito de voto, quando muito o de palavra, é defendido por outro que o tenha. E se os países latino-americanos se articulam, suas demandas têm mais chances de serem obtidas: no comércio, na saúde − direito de acesso a patentes − e nos investimentos para a promoção social e para investimentos em infraestrutura, etc.

Conexões(texto).png

Tal força se expressou a partir da década de 2000, quando a maior parte dos países latino-americanos elegeram governos progressistas, ou seja, no Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2008); Néstor Kirchner (2003-2007) e Cristina Kirchner na Argentina (2007-2015); Evo Morales (desde 2006) na Bolívia; na Venezuela, Hugo Chávez (1999-2013); no Paraguai, Ricardo Lagos (2000-2006); no Chile, Michelle Bachelet (2006-2010/2014-atual); no Uruguai, Jorge Batlle (2000-2005), Tabaré Vázquez (2005-2010/2010-atual); e Felipe de Jesús Calderón Hinojosa (2006-2012) no México. Todos esses presidentes sofreram os mesmos processos de demonização pela imprensa, a maior parte deles teve seus governos golpeados e, nestes casos, substituídos por pessoas sem legitimidade, porque perdedores nos pleitos eleitorais.

Os procedimentos golpistas, deem uma pesquisada, são os mesmos: uso do combate à corrupção para fins golpistas, demonização dos líderes, exacerbação das fragilidades da economia como crises decorrentes das medidas sociais, articulação dos três poderes – Legislativo e Judiciário contra o Executivo, questionando com isto o discernimento da população para votar. Do ponto de vista da articulação internacional, nem precisaram derrubar todos, pois os que se mantêm ficam fragilizados e isolados, o mesmo ocorrendo quando conseguem retornar, novamente eleitos. Basta isso – e eles continuam nos dominando e mantendo sua supremacia sobre nossa soberania.

 

Vera Lúcia Vieira
Profa. Dra. PUC-SP
Coordenadora do CEHAL- PUC-SP
Vice-presidente da Adhilac – Asociación de Historiadores Latinoamericanos y del Caribe – seção Brasil

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s