A Canalhice e a Educação

Capturar

Texto e fotos: Lucas Tomaz de Aquino

O ato das ETECs subia pela rua da Consolação, seguindo para a Paulista rufando tambores e pulmões. Paro numa padaria pra comprar um salgado e logo em seguida uma mulher de cerca de 40 anos, toda bem vestida, se aproxima com seu filho de cerca de 8 anos do balcão onde estou. O menino, vestindo o uniforme de seu colégio particular, indaga à mãe a razão daquelas pessoas gritando nas ruas. Silêncio. Até que os olhos do menino encontram os meus, que digo: “É que roubaram a merenda que eles comem na escola, tão protestando porque não tem o que comer, tão com fome.” A mãe engole o suco a seco. O menino olha reflexivo para o vazio por alguns instantes e depois fixa os olhos no pão de queijo entre seus dedos. Até que rompe o silêncio: “Mãe, o que é merenda?”
Nesse ínterim, três estudantes secundaristas entram para comprar um salgado. Um deles leva no peito um papelão com a inscrição “Tô com fome!”. O menino assiste aquilo com os olhos arregalados, atônito ao comprovar que minha fala não era mais uma das histórias fantasiosas que sua mãe conta para ele antes de dormir – ou depois de acordar -, que a realidade é dissonante a muitos dos discursos que ele absorve ou vivencia.
Fui pagar a conta enquanto minha companheira terminava de comer, e fora da padaria ela me contou que a mãe disse baixinho para o filho: “É que eles estudam em colégios diferentes do seu, o deles é de graça, não tem que pagar… Eles não levam o lanche de casa, como você”.

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Esse discurso liberal e canalha por essência é bem próprio de uma larga fatia dos moradores de São Paulo. A burguesia abjeta que está há tempos instalada na cidade perpetua esses e outros enredos pelas vias mais diversas, desde a prosa miúda familiar aos oligopólios comunicacionais enraizados na cidade.
De que importa se a represa secou, se a polícia matou, se a pedalada girou, ou se a merenda roubou? Quando há algum questionamento acerca da administração do Estado de São Paulo, a culpa ou é do acaso divino, ou do pobre, ou, na maior parte das vezes, simplesmente não há culpados. No mais, é tudo uma questão do tempo ir continuamente ofuscando as vistas populares com suas sucessivas camadas de poeira sobrepostas. E ó que isso funciona que é uma beleza, há decadas…
O movimento dos secundaristas no ano passado se fez referência não só para estudantes de outros Estados, que replicaram revoltas e estratégias, como também oxigenou os métodos de atuação de movimentos sociais de esquerda mais antigos. Estão simultaneamente aprendendo e ensinando, teoria e prática conjugadas nas ruas e nas escolas, em casa e na padaria. Em um momento histórico de devassa das conquistas sociais, os secundaristas emergem como um dos poucos alentos de esperança de um futuro promissor, ao menos para a nossa combalida esquerda. Mostraram não só que tem fome, mas também estômago, braços e pernas para as tantas lutas do porvir.

WhatsApp-Image-20160429 (1)Nota: Nesse instante segue a ocupação secundarista no Centro Paula Souza e eles necessitam de comida pronta, bebidas e cobertores. Quem puder ajudar o endereço é: Rua das Andradas, 140, Santa Ifigênia. Próximo a estação Luz.

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