O Golpe Está Sendo Televisionado (Editorial do dia 18.04.2016)

Fora Cunha
(Foto: Carlos Moura CB DA press)

Ontem, o Brasil assistiu atônito à bizarra votação do Impeachment pelo plenário da Câmara dos Deputados, o que apenas comprovou o caráter golpista do processo.

Em um dos mais bisonhos espetáculos da história brasileira, sob o comando de Eduardo Cunha, um sujeito cujas acusações da Procuradoria Geral da República assentadas em provas sólidas lhe valeriam 184 anos de prisão, os deputados votavam pelo impedimento da presidente Dilma Rousseff sem sequer disfarçar os motivos.

Nem ao menos tinham o pudor de citar as tais “pedaladas”, alegando que votavam em nome de deus, de suas famílias ou, pior ainda, em homenagem a torturadores — como fez um deputado que sequer merece ser citado, pois sua justificativa cínica de voto, bem como as ofensas homofóbicas que proferiu a um colega homossexual em plenário, tinham o claro objetivo de atrair para si os holofotes e satisfazer setores dementes e perversos de nossa sociedade.

O que se viu foram as vísceras do nosso sistema político, algo longe de ser democrático. Trata-se de um espaço dominado pelo poder econômico e por discursos cínicos ou que apelam para os diversos fanatismos, religiosos ou autoritários, para manipular as massas insatisfeitas.

Não é que ontem tenha morrido a liberdade sob aplausos, em uma cena que transcendeu a ficção de Star Wars, mas que a máscara da Nova República caiu: ainda que sob o regime formalmente democrático tenhamos conseguido alguns importantes avanços, o fato é que a identidade autoritária foi conservada no interior do sistema.

Nada a nos espantar, uma vez que é público e notório a forma como a transição da ditadura para a democracia em nosso país foi insuficiente. A derrota da presidente no plenário, portanto, foi apenas um detalhe. Fosse qual fosse o resultado, a frágil e jovem democracia brasileira teria saído derrotada.

A imprensa internacional, diga-se de passagem, não deixou passar desapercebido o absurdo. Não poderia ter sido mais preciso o jornal britânico The Guardian ao dizer que “Congresso hostil e manchado pela corrupção” derrotou Dilma.

Certamente, as mentes mais moderadas a favor do Impeachment tiveram uma mostra do que está por vir, que não é o fim da corrupção, mas apenas a troca de Dilma por Michel Temer, embora este tenha feito exatamente a mesma coisa que a titular e ainda pese contra si a aliança com Cunha.

A julgar pelo fanatismo que está sendo usado e o clima de vale tudo, a coisa não vai parar por aí. O processo de destituição inconstitucional de Dilma abre margem, sem sombra de dúvida, para  a deterioração da liberdade no Brasil.

 

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