(Opinião) Querem regular nosso corpo

Provavelmente tem alguém na sua família, que “respeita” LGBTs, “embora” não “ache” ser não-cishetero “normal”. Deve ser uma pessoa amável, excelente pai de família, que ama a todo mundo e talvez você sinta muito amor por essa pessoa. “Outras épocas”, diríamos então, para ser complacentes com o que dizem se forem mais velhos. “Um dia, aprende”, pros mais novos. Talvez você até ouça no almoço de família que você não deve “sentar no pudim”, que “a vida é dos que trabalham” e outras famosas “regras” da meritocracia.

Provavelmente tem alguém na sua família contra o livre direito ao aborto, porque “ofende a Deus”. Deve ter mais de uma pessoa que fala mal “das drogas” enquanto serve caipirinha e bebe alegremente. Pelo menos os fumantes devem ser coerentes e não falam mal para que ninguém dê pitaco no seu “câncer” (e é o que a família inteira deve fazer). Sempre há de ter o parente que “se perdeu” no “mundo das drogas” como assunto na roda dos “homens de verdade”. E o silêncio cúmplice dando dois tapinhas no ombro dos agressores domésticos.

Possivelmente alguém na sua família é contra cotas para negros nas universidades e não se impressiona nem um pouco com o tanto de “negro bandido” nas cadeias hoje em dia. Devem achar exageradas as estatísticas de homicídio quando subdivididas por raça e por faixa etária, se é que alguma vez as viram. Acham os corpos negros “até” bonitos, desde que alisem aquele “pixaim”, ou pelo menos que façam “progressiva”, e “deus nos livre” do black power, não é mesmo?

Mais de uma vez, você já deve ter ouvido os pais da sua família dizerem que “ai da filha” se aparecer namorando um “daqueles” maconheiros, corintianos, cheios de piercings ou tatuagens. Família também é um lugar incrível para descobrir onde fica o lugar de “mulher direita”, esse tão famoso que, contudo, não se vê nos mapas. A idade certa para casar e ter filhos, sempre antes de trinta. Os comentários infinitos sobre relacionamentos findos e as teorias infalíveis para se viver um romance lindo.

Sua família não é a única. Sua família não é sequer o problema. Não se deve lutar contra o indivíduo, por mais que imite a Mussolini, Salazar e Franco (para não cair na mesmice eterna de se citar apenas a Hitler). A responsabilidade de quem percebe as correntes que o prendem é a de lutar para quebrar essas correntes.

A batalha começa em nossos próprios corpos.


Beatriz de Barros Souza é Bacharel em Relações Internacionais pela PUC-SP e Mestranda em Direitos Humanos pela USP sob orientação da Profa. Dra. Eva Alterman Blay.

 

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