Imprensa e Política: jornais paulistanos no Golpe de 1964

 

“OS COMUNISTAS INVADIRAM O BRASIL”.

Era essa a impressão de qualquer leitor de jornais no início dos anos 1960.

Desde a posse de João Goulart, na Presidência em 1961, setores militares já planejavam sua queda, alguns eventos em março de 1964 – Comício pelas Reformas de Base e Revolta dos Sargentos, por exemplo– serviram como justificativa para a intervenção das Forças Armadas no processo político.

Matérias, manchetes e editoriais veiculados pela imprensa, nesse período, dão ideia do clima tenso e é importante entendermos que essas informações não foram neutras ou meramente “informativas”. Esse texto apresenta, sumariamente, a atuação dos jornais paulistanos Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, no golpe militar de 1964.

Defendendo a ”ordem”, a Folha teceu fortes críticas ao comício pelas Reformas de Base, ocorrido em 13/03/1964, na Guanabara, afirmando que foi organizado por extremistas que tentavam subverter a ordem.

“(…) surdo ao bom senso, preferiu o Sr. João Goulart prestigiar uma iniciativa vista com justificada apreensão por toda a opinião pública (…) espetáculo que lembra as maciças concentrações populares organizadas para sustentar ditadores ou aspirantes a tal (…) se não foi um comício de pré-ditadura, terá sido um comício de lançamento de um espúrio movimento de reeleição do próprio Sr. João Goulart. Resta saber se as Forças Armadas (…), preferirão ficar com o Sr. João Goulart, traindo a Constituição, a pátria e as instituições” (FSP, 14/03/64, editorial)

O Estadão, também exige um posicionamento das Forças Armadas nesse episódio. O editorial “O presidente fora da lei”, de 13/03/64, acusa o presidente de desrespeitar a lei e alega que isso é apenas o início: “É, evidentemente, a última etapa do movimento subversivo que (…) é chefiado sem disfarces pelo homem de São Borja. E é também o momento das Forças Armadas definirem, finalmente, a sua atitude ambígua ante a sistemática destruição do regime pelo sr. João Goulart, apoiado nos comunistas”. Novamente, o jornal cobra medidas enérgicas das Forças Armadas.

A “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, ocorrida em São Paulo dia 19/03, foi uma resposta ao comício da Guanabara e, sobre essa manifestação, a Folha apresentou a seguinte manchete: “São Paulo parou ontem para defender o regime”. Qual seria esse “regime” defendido por São Paulo?  O jornal refere-se ao regime democrático, supostamente em risco pelas ações do presidente João Goulart.

“Meio milhão de paulistanos e paulistas, manifestaram ontem em São Paulo, no nome de Deus e em prol da liberdade, seu repúdio ao comunismo e a ditadura e seu apego a lei e a democracia”. (OESP, 20/03/64). “Multidão desta vez composta de brasileiros profundamente conscientes de seus deveres e obrigações.” (OESP, 21/03/64). Nesse editorial – e no anterior – O Estado de S. Paulo buscou resgatar a memória de 1930 e 1932, “da luta contra os caudilhos e a ditadura”, mostrando que o povo de São Paulo saberia lutar bravamente para garantir a Constituição de 1946 que estaria, segundo o jornal, em risco.

A Revolta dos Marinheiros em 26/03, que muitas vezes é apontada como a causa do golpe, nada mais foi do que a “gota d’água” de um movimento golpista que já vinha caminhando a passos largos.

Nesse episódio, mais uma vez, a Folha se colocou ao lado da “ordem”, criticando primeiro o movimento e em seguida lançando ataques à solução dada pela presidente ao incidente. “A solução dada pelo presidente (…) tem todas as características de uma capitulação. A indisciplina saiu vitoriosa, e aos indisciplinados só falta conceder medalha de honra ao mérito.” (FSP, 29/03/64, edit.)

Na noite do dia 30 de março o presidente compareceu ao Automóvel Clube, da Guanabara, para comemoração do 40° aniversário da fundação da Associação dos Subtenentes e Sargentos da Polícia Militar. Nesta solenidade Goulart, proferiu o seu discurso mais radical.

No dia seguinte, os jornais se levantaram novamente contra o presidente. “Se infeliz foi o comício do dia 13 (…) mais infeliz ainda foi a manifestação presidencial de anteontem, em que o sr. João Goulart parece haver desejado lançar um desafio a toda a oficialidade das corporações militares”. (FSP, 01/04/64, edit.)

O discurso do presidente João Goulart acabou sendo a senha para o início do golpe militar. Na madrugada de 31 de março de 1964, o General Mourão Filho, comandante da V Região Militar sediada em Minas Gerais, movimentou sua tropa em direção ao Rio de Janeiro. Estava deflagrado o golpe militar.

Com a subida de Castello Branco ao poder, a Folha não poupou elogios ao novo presidente. “A nação ouviu ontem do presidente da República, na solenidade de sua posse, as palavras que desejava ouvir (…). É com satisfação que registramos ter seu discurso de posse reafirmado todas as nossas expectativas e revigorado a nossa esperança de que uma nova fase realmente se descerrou para o Brasil”. (FSP, 16/04/64, edit.)

Um dos editoriais que mais nos chamou à atenção foi o intitulado “O sacrifício necessário”: “Nossas palavras dirigem-se hoje (…) aos que se acham dispostos ao sacrifício de interesses, de bens, de direitos, para que a nação ressurja quanto antes, plenamente democratizada” (FSP, 02/04/64, edit., grifos meus). Importante observar a mudança no discurso da Folha. Durante o governo Goulart, o jornal atacava o presidente, que supostamente era uma ameaça aos direitos legais. Após o golpe, o jornal, passou a defender a necessidade de suprimir direitos constitucionais.

Nesse mesmo sentido, no dia 03 de abril, o Estadão, estampou a seguinte manchete: Democratas dominam toda a Nação.

É inegável que houve um árduo trabalho por parte dos jornais para desestabilizar o governo Goulart, a imprensa paulistana, apresentando-se como porta-voz da opinião pública, saudou a instalação de um governo autoritário e ilegítimo como se fosse democrático e legal.

2016 não é 1964, Dilma não é Goulart e o PT não é o PTB, no entanto, não podemos deixar de observar que a imprensa ainda é a mesma, as grandes famílias que controlavam os principais meios de comunicação na década de 1960  controlam ainda hoje, as elites atuais  são as mesmas, ou muito próximas daquelas de 1964. Assim, não podemos esmorecer na luta pela defesa dos princípios democráticos, sob o risco de uma nova ruptura institucional, sempre bom lembrar que golpes de estado podem ser militares, civil-militar (como em 1964) ou apenas civil.

Luiz Antonio Dias – Doutor em História Social

Professor do depto. de História da Pontifícia Universidade Católica (PUCSP)

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